Saturday 12/05/2012 às 16:43 | Arquivado em: contos
Estava nas cartas, mas ficou lá, no passado. Era um amor tão louco que a gente se perguntava até onde ele ia, pois não se sabia ao certo. O problema era essa dúvida que pairava, sempre.
Era assim que eu pensava, enquanto caminhava por aquela avenida que pra mim não parecia ter fim, embora fosse, na realidade, bem pequena. Faziam dias e dias que eu não via aquele a quem tanto amava. Finalmente cheguei em casa, e fiquei ali mesmo, pelo jardim. De repente algo me veio em mente e fui olhar a caixa do correio. Havia um grande envelope azul-claro que dizia: “leia e siga as instruções”. Achei curioso, e por isso abri rapidamente.
Nele tinha um mapa que detalhava todos os locais da minha cidade. Fora feito com capricho, desenhos dos lugares que eu mais gostava, explicações detalhadas de como chegar, mas sem nenhuma informação de quem lá estaria. Lá na Livraria da Praça, no lugar que eu costumava me esconder pra ler algo que me lembrava bons momentos até a hora que fechava, às 21h. Tanto tempo parecia ínfimo. E fui, com o mapa nas mãos correndo pela rua. De tão ansiosa, deixei o envelope lá, na grama.
Ao andar pelas ruas, cada uma delas parecia ganhar nova cor. Nunca mais tinha arriscado nada desse tipo, nada parecia acontecer, e eu era só tristeza. E agora me via eufórica sem saber o porquê e nem saber por quem. Mas eu gostava da sensação. Era doce.
Ao chegar à livraria, peguei novamente o mapa, e ele dizia para eu procurar um livro de Vinicius de Moraes que estava na prateleira do canto direito. Logo dei um belo sorriso: não tinha como acertar tanto. Seja quem fosse, me conhecia bastante pra saber que eu amo os poemas de Vinicius. E eu estava ainda mais curiosa por saber mais e mais. No livro, tinha um adesivo, dizendo: “Leia o Soneto de Fidelidade“. Foi quando me dei conta que sim, aquele era o mais lindo poema de Vinicius, fiquei ainda mais perplexa. E aquela era uma pista de que seria alguém do meu passado. Mas eu só pensava em uma pessoa, e no entanto, não dava pra saber se era mesmo ela. Mas esse bendito coração não sabe ser imparcial. Li cada pedacinho do soneto, mas me demorei mais na seguinte parte: “Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”
E fui ver no mapa qual seria o segundo lugar a ser visitado por mim. Mas antes, havia um recadinho: “Vá pra casa, já é tarde, descanse por hoje. E guarde o envelope que você deixou na grama do seu jardim.”. ficou a dúvida: quem era essa pessoa, e como ela sabia do envelope?? Nem eu tinha me lembrado que tinha deixado no jardim. Voltei pra casa, a avenida continuava grande. Mas dessa vez, de tantos pensamentos. Apanhei o envelope e fui para o meu quarto, resistindo aos berros da minha mãe que falava que já era tarde. Tentei ficar calma, mas queria que chegasse logo o outro dia, para que eu descobrisse algo a mais.
Hoje eu não tinha tema, pauta ou coisa parecida. Mas queria escrever no blog mesmo assim. Então resolvi escrever sobre…escrever.É algo que eu gosto de fazer desde a adolescência, e foi ficando. Os namoros, as amizades, tudo mudou, e a paixão por escrever, essa ficou. E escrever o que eu sinto, não para acharem bonito, só por vaidade. É uma prática libertadora para mim.
Também admiro aqueles que escrevem porque gostam. E não vou criticar o que escrevem para ganhar dinheiro, pois eles também devem gostar, ao menos a maioria, do contrário não fariam o seu trabalho bem. Mas admiro. Pois quem gosta de escrever gosta também de ler outros, trocar experiências, pedir conselhos, e também aceitar críticas, quando necessário.
Certamente, o que eu escrevo agora é beeem diferente do que escrevia há anos atrás, mesmo aqui no blog (é, meu bloguinho tem quase 5 anos). Mas a vida muda, nós mudamos, e com tudo isso, os textos. Nada mais fluido.
E eu também quero ensinar a outros a gostar de escrever. Sobre isso, posso até falar mais depois, mas agora vou deixar o mistério. E peço encarecidamente a você que tem um blog, assim, despretensioso: não desista, se te faz tão bem. É quase uma biografia nossa. Só que bem mais simples, claro.
Wednesday 02/05/2012 às 19:23 | Arquivado em: poesia
Não é só por ele ser pernambucano. Tudo me levava à Manuel Bandeira. Pois, mesmo em outro tempo, ando pela Recife que ele tanto falou, e até mesmo na casa em que ele passou parte da sua infância, na Rua da União. Mas eu vim aqui falar de uma poesia específica, um amor que tenho há alguns anos.
Arte de amar
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
(Manuel Bandeira)
Alguns podem discordar do poeta, outros concordar. Eu me reservo há dizer que há contextos e contextos. O corpo, o físico, se entende porque não há segredo, de certa forma. Já as almas…haja mistérios! Para desvendá-los, é preciso de mais que desejo, de algo maior chamado vontade. Algo da alma. E eu entendo o texto como: não se pode buscar o amor no outro. O amor está dentro de você, e ele só lhe é dado na medida que você o cede a alguém. E isso, meu bem, depende do outro. E de você, indiretamente. Plantar, colher. Quem disse que poesia precisa ter interpretações exatas? Acho que nem pode. Porque as coisas exatas se explicam, mas as poéticas, não.
Tenho boas lembranças dessa poesia. Da minha melhor amiga escrevendo-a numa carta para mim. Não me preocupo em analisar, criticar, mas em senti-la. Com a alma.
P.S.: Na casa que Bandeira passou parte de sua infância morando com os avós, que falo no início, funciona o Espaço Pasárgada. O local serviu de inspiração para muitas poesias, como Evocação do Recife, e hoje há lá uma programação que o homenageia, assim como a alguns outros poetas locais. No aniversário do poeta, que é dia 19 de abril, geralmente há programações de homenagem. Eu fui lá apenas uma vez (e tenho que ir mais vezes, eu sei) e foi liiiindo. Imagine, sentir Bandeira. Sentir suas poesias mais lindas, inspiradas na Rua da União, da casa do seu avô, onde ele muito brincava. Está lá, a casa, linda linda. Se eu fosse vocês (que são de Pernambuco), iria lá. E quem não é, mais um motivo pra querer visitar, porque lá é muito amor!
Saturday 28/04/2012 às 17:16 | Arquivado em: Uncategorized
Era uma tarde de um dia de semana qualquer naquela cidade que eu tanto gostava. Isso faz muito tempo. Posso não lembrar do dia, mas lembro do seu olhar de tristeza quando eu disse que ia voltar pra casa. Você me pediu pra ficar. Juro que essas palavras e aquele olhar me cortaram o coração, pois eu te amava, tal qual você me amava. A orquestra perfeita de sentimentos, ou quase.
Eu tinha que voltar pra casa. A saudade, a vontade de estar junto dos meus pais me tirou de você. Foi uma escolha que fiz. E é a que deveria ter feito, mesmo, naquele momento. Mas não a fiz sem chorar muito.
Lembro de como você era comigo. Doce, calmo, com um olhar dizia que me amava, sem precisar usar sequer palavras. E eu correspondia, tal e qual. Infelizmente, os quilômetros que nos separariam a partir dali iriam dificultar a manutenção daquele vínculo, do começo de tudo, do início de um amor. Até tentamos manter, era bom estar perto mesmo longe, mesmo virtualmente, sei lá. A gente se gostava. Mas dessa forma, não vingou.
Até que, anos mais tarde, te revejo. Vejo aquele olhar, e você pode até ter mudado, mas ainda está lá: doce, calmo, tão certo. Igual antes, pelo menos nesse aspecto. E é raro coisas assim não se modificarem. É a essência mais pura mesmo.
Daí que me pergunto: será que era você? Será que eu poderia ter dito antes? Acho que não, ou não sei ao certo. Mas eu tinha que dizer, agora, por meio de palavras. Acho que você poderia ser o certo pra mim. Eu posso até estar errada, afinal, sou humana. Mas pelo menos eu disse. Porque como a Diane Birch diz, “o tempo não vai mudar as coisas não ditas”.
P.S.: O texto foi escrito inspirado na música acima (Rewind – Diane Birch), que eu amo de paixão!