O fio das missangas, Mia Couto

by at 03:18 in resenhas

fio-das-missangas_rep_300 (1)

Nome: O fio das missangas

Autor: Mia Couto

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2004

Onde comprar: Livraria Cultura

 Quando mais nova, adorava fazer colar de missangas. Por várias vezes, eu pegava o fio de náilon e criava novas formas de me embelezar. Mas acho que nunca parei a sério pra contar quantas eu utilizava para fazer um desses colares, principamente se fosse com as missangas grandes. Talvez porque eu quase nunca as utilizasse, preferia as mais pequenas e simples. E na feitura desses colares não havia muita reflexão, apenas técnica.

Mia Couto, ao contrário de mim com a minha imprecisão “missanguística”, sabia bem o que estava fazendo ao colocar cada missanga no fio dessas suas histórias tão únicas, e mesmo assim, tão ligadas, sem almejarem ser individuais. Cada uma dessas suas missangas, por nós conhecidas como contos, nos tocam de uma forma deliciosamente dolorosa. É esse, sim, o termo. Enquanto que com as minhas eu pensava em embelezar apenas o meu pescoço, ele com as suas embelezava a vida. Com uma dor sublime.

Como o autor bem diz num dos contos: “A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas, as missangas…”. A verdade contida nesse que é um trecho do conto “O fio e as missangas” perpassa também todos os outros 28. Isso mesmo: são 29 histórias com apenas um fio condutor, mostrando cada faceta da vida humana do jeito que Mia Couto gosta de mostrar: nunca sem sofrimento, nunca sem poeticidade, nunca sem magia. Se alguém disse ser impossível juntar tudo isso, ele foi lá e mostrou justo o contrário. Não é crítica social, não é crise existencial, é também isso e ainda mais: do jeito que ele descreve, a alma de cada personagem se reveste de dor e poesia.

Os contos são pequenos e de início se acha que é um dos livros dele de mais fácil leitura. Ledo engano. Acho que com o segundo livro dele lido, paro de procurar facilidade, e o argumento que eu uso para os que querem começar a ler é que você vai pensar não só a sua vida, mas a existência humana como nunca antes. O tamanho dos contos (geralmente duas ou três páginas cada um) não esconde a imensidão deles. Muito mais do que n’A Confissão da Leoa (e falo desse apenas porque, além d’O Fio das missangas, foi o único livro que li do autor, fato que pretendo mudar o mais rápido possível), há nesse uma experimentação maior da linguagem, com um maior uso de neologismos e os aforismos.

Como eu não terminaria nunca de resenhar se fosse falar um pouco da história de cada um dos 29 contos, eu elenquei 3 deles, sem necessariamente ter ordem de preferência. São eles:

1. O homem cadente

“Aquele gerúndio era um desmando nas leis da gravidade: quem cai, já caiu.”

José Antunes de Marques Neto, mais conhecido como Zuzé Neto, se joga do seu prédio. Mas ao contrário do que seria usual acontecer, ele não cai: fica suspenso no ar, atraindo curiosos que criam as mais diversas explicações para o fato. Nesse conto, sonho e realidade mesclam-se de maneira tão singular e rica que a história passa malemolente pelos nossos olhos – e claro, pela nossa mente. De resto, leiam e descubram, não quero falar demais da história, pois essa é uma das que o mistério sobre as coisas descobertas é o que mais encanta. Não quero, então, estragá-las.

2. A saia almarrotada

“Agora estou sentada, olhando a saia rodada, a saia amarfanhosa, almarrotada. E parece que me sento sobre a própria vida”

A personagem, que não possui nome no conto, difere das mulheres da sua idade pois não se deixa levar pelos enganos das vaidades, estas que são grandes alienações do seu tempo. Nunca tivera luxo algum, e ao receber do seu tio um vestido para um baile que viria a acontecer, ela refletira sobre a própria vida. E foi justamente isso que esse vestido, junto com o baile, simbolizou: as impossibilidades de uma vida na qual ela era anônima, não sendo assim dona dos seus atos e sem nenhuma perspectiva de um futuro de sonhos como aqueles elementos pareciam suscitar. Ela própria não se deixava sonhar pois isso não a tiraria de sua árdua realidade de ser mulher. A poeticidade da tristeza nesse conto torna tudo ainda mais bonito e emocionável.

3. Inundação

“Há um rio que atravessa a casa. Esse rio, dizem, é o tempo. E as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente. Acredito sim, por educação. Mas não creio. Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança.”

 

 Também me senti inundada com essa história tão sublime. As lembranças de um filho sobre o pai e da sua mãe sobre o marido, assim como as do filho sobre a casa são muito interessantes. Na história, diz-se que o pai “se volatilizara”, ou seja, provavelmente morreu. Na verdade, tudo na casa estava se volatilizando, voando no tempo como ave. Aquela visão do filho era uma expressão do tempo, mera lembrança que adquirira uma substância tão rasa que só se aguentara ali por alguns instantes. As lembranças estão nas pessoas, não nas coisas. Essa foi a mensagem que o conto me passou.


Depois de falar um pouco desses contos, digo que ter mais um livro do Mia lido significa, para mim, mais uma riquíssima experiência. Saudade das palavras lidas e vontade de mais e mais. Depois de ter lido, sinto o colar feito. E mesmo com apenas 29 missangas, acho que são grandes o suficiente para não apertar muito: me sinto muito confortável usar esse colar. De poesia e de vida.

13 comments. Leave yours...


  1. Paloma - February 03, 2013 ( Reply )

    Olha só: parece que sempre que eu chego aqui é dia de Mia Couto. Começo a achar que é o destino tentando me empurrar por esses caminhos. Esse livro me atraiu mais do que o último que você comentou, gosto muito de contos. Acho que vai entrar para minha lista da bienal.
    Beijos

    • despindoest - February 04, 2013 ( Reply )

      Sério, Pa? Então ele está no seu caminho! Fico feliz se fizer alguém ler Mia, é algo maravilhoso e você vai saber quando ler. Bote na sua lista sim, acho que não se arrependerá! ;)

  2. Tiêgo - February 04, 2013 ( Reply )

    Acho que em todas as nossas conversas você dá um jeito de falar do seu amor por Mia Couto e eu tô quase comprando um livro dele só pra atestar tudo isso! hahahaha Que resenha maravilhosa, Tay. Deu uma verdadeira aula, sem querer. E eu já tenho um fraco por livros de contos, então fiquei MUITO afim de ler O Fio das Missangas! CORDEI KD RYQUEZZA???? hahahaha

    Beijo! :*

  3. georgia aegerter - February 05, 2013 ( Reply )

    Tay, obrigada pela visita lá na Saia Justa.

    Olha, eu adoro este autor e já li alguns livros dele. Esse eu ainda nao o li. Vou ter que ver quem vai à Portugal por aqui para poder encomend#a-lo, pois ele é tao profundo que é melhor lê-lo na lingua de origem.

    Olha, as estrelinhas qdo se passa o ” maus”, eu copiei o código deste post aqui.

    http://www.elainegaspareto.com/2012/10/enfeites-e-truques-para-seu-blog.html

    É super fácil.

    Uma linda semana pra você.

    Bjao

  4. Hélvio - February 07, 2013 ( Reply )

    Parece ser ótimo, não conhecia antes :/

  5. Laila - February 09, 2013 ( Reply )

    É mais um daqueles autores que eu já ouvi falar e vi trechos por aí, mas ainda não li. Mas está anotado aqui na lista. Faz muito tempo que leio um livro de contos… acho que isso tem que acabar.

  6. Vanessa - February 13, 2013 ( Reply )

    Eu jurava que os contos desse livro eram independentes. Que interessante que tenha um fio condutor. Quanto mais você fala em Mia Couto, mais tenho certeza de que deve ser genial. Fiquei pra lá de curiosa com ” O homem cadente”.
    Mais uma excelente resenha, Tay!

    • despindoest - February 13, 2013 ( Reply )

      Eles têm uma certa ligação, mas as histórias são independentes no sentido de que são histórias diferentes, situações diferentes. Você pode lê-las também separadas caso queira (se bem que mesmo em livros de contos, prefiro ler na sequência, assim como leria um romance).
      Mas elas tem sim, certa ligação. Leia sim, Mia! Ele é maravilhoso demais, demais. E paro por aqui porque isso já tá claro faz tempo, né amiga? Haha beijo.

  7. Marcela - February 19, 2013 ( Reply )

    Livros de contos tem sempre meu carinho especial, pq eles tem um poder incrivel de me fazer pensar, refletir…as vezes de forma racional, as vezes de forma dolorosa, mas de alguma forma eles sempre trazem algum tipo de reflexão bem profunda. Esse livro aí parece ser dos bons!
    Beijos!

  8. camila - February 21, 2013 ( Reply )

    Adoro indicação de livro :)
    Estou lhe seguindo no instagram.
    Bjinhos

  9. Laryssa Carvalho - June 09, 2013 ( Reply )

    ganhei esse livro semana passada, mas fiquei com um pouquinho de preguiça pra ler, quem sabe depois dessa sinopse eu não comece ainda hoje?kkk

Comment

*


CommentLuv badge