O dia 17 começou brilhantemente com o moçambicano Mia Couto e o angolano José Eduardo Agualusa no painel intitulado “Literatura e realidade”. Era uma conversa entre amigos próximos, descontraída mesmo, na qual eles falaram sobre histórias engraçadas que passaram: relatos de frequentes enganos entre Mia e Agualusa, quando as pessoas cumprimentavam um achando ser o outro (o hilário é que já na fila para a sessão de autógrafos deles, uma senhora que estava atrás da gente confundiu também e eu não ri pouco). Mas, voltando… Eles apresentaram um o novo livro do outro (“A culpa é da leoa” do Mia Couto e “Teoria Geral do esquecimento” do José Eduardo Agualusa), e o carinho de amizade era mais visível a cada palavra. Eles inclusive disseram ter escrito peças de teatro juntos, e para isso, acredito que tem que ter uma harmonia muito grande entre as partes para dar certo (depois vou procurar saber mais sobre essas peças, e podem deixar que dividirei aqui com vocês, até porque falar disso agora fugiria um tantão do assunto). Mia Couto teve o seu livro mais recente, “A Confissão da Leoa” (clique para ler sobre o livro), muito elogiado por seu amigo Agualusa, que falou que era esse um livro totalmente novo, que surpreenderia os que já eram leitores do autor moçambicano. O livro “Teoria Geral do Esquecimento” (clique para ler sobre o livro) de Agualusa, por sua vez, foi apresentado por Mia Couto, falou que era um livro sobre fronteiras, sobre impossibilidades.
Responderam perguntas sobre suas obras, encantando o público que lotou a tenda do Congresso Literário para vê-los. Para mim, foi o melhor dessa Fliporto. Tanto que dediquei esse post só para eles. Leiam trechos desse painel que mais me marcaram:
“À medida que envelhecemos, vamos ficando cegos. Escrever é combater essa cegueira.” (Agualusa)
Sobre o assunto de cegueira, e também do conhecer, Mia Couto citou o seguinte texto do Eduardo Galeano (amo):
“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar!”
(Eduardo Galeano – extraído do Livro dos abraços)
Muito interessante também foi uma pergunta feita por um professor meu para eles: “Quanto de fantástico vocês admitem que há em suas obras?” , e a qual Agualusa respondeu que “Na realidade africana, não há uma grande fronteira entre o maravilhoso e o real. O maravilhoso se intromete na realidade”.
Comprei, nesse dia, dois livros de Mia Couto para mim (“A confissão da leoa” e “Venenos de Deus, remédios do Diabo” e outro para a Aliny (“O outro pé da sereia”).
Consegui autógrafo e foto também, com ele e meus dois amigos Renata e Valmir. <3
O autógrafo no meu livro.
Nós e o Mia.
Infelizmente, não consegui comprar o livro de Agualusa, pois tinham levado poucos e logo acabou (como assim? :\). Ou seja, ainda quero.
Mais tarde, falarei mais sobre outros painéis do dia 17 e sobre o dia 18, que foi o fechamento do Congresso Literário e da Fliporto.
Quem me conhece sabe que eu sou apaixonada pela Fliporto. Essa paixão é recente, sim, pois só em 2011 eu participei pela primeira vez. Fui descobrindo tudo sozinha e sério, não me senti só. Me encontrei com pessoas que gostam das mesmas coisas que eu, fazendo contatos maravilhosos, assisti palestras incríveis e torci muito pra que chegasse logo novembro de 2012, por causa do evento.
Até que, depois de muita espera, novembro chegou e trouxe a Fliporto linda para mim de novo. A edição de 2012 homenageou o grande escritor Nelson Rodrigues, e tinha como símbolo as máscaras do teatro, achei lindo.
Na Tenda do Congresso Literário, tiveram vários painéis (como são chamadas as conversas, pois assim que elas se configuram e não como palestras) de temas variados, como o painel de tema “Shakespeare e Sófocles: nossos contemporâneos”, no qual Kathrin Rosenfield, João Cezar de Castro Rocha e Lawrence R. Ferreira no qual a Kathrin disse algo que muito me interessou: nós temos sim, acesso aos títulos clássicos da literatura, mas há barreiras – muitas vezes imaginárias – que nos separam dessas leituras. E realmente, passei por essa constatação. Os clássicos são bem mais fáceis do que se imagina na maioria das vezes, não há porque o medo de encará-los.
Depois desse, teve um painel incrível com Betty Milan falando sobre “Teatro e psicanálise” e me fez vibrar quando disse que o teatro nada seria sem a literatura, e sim que ele (o teatro) nasce da literatura. Claro que a opinião fez algumas pessoas discordarem. Mas eu super concordo com ela, e ainda digo mais: nem sempre a literatura precisa de muitas palavras. As entrelinhas muitas vezes são os elementos que mais definem as ações. A peça escrita por Betty, intitulada “A vida é um teatro”, conta com três atores e alguns poucos elementos cênicos. Muito interessante, pois cada cena é tratada como uma partitura pelo elenco. Em todas as cenas há um consulente, o analista e a voz, mais conhecida com o inconsciente: escondido, mas que quando vem à tona fala o que todos querem, mas não tem coragem – é uma voz que não cabe no discurso do analista, aliás. Esse espetáculo, mesclando psicanálise e teatro, muito mostrou sobre a alma humana.
Essas foram as que eu assisti realmente, do início ao fim nesse dia. As outras não me interessaram tanto, e também tinha outras coisas para fazer antes: livros do Mia Couto pra comprar pra ele autografar no dia seguinte – e claro, dar uma olhada em outros livros também – e andar por todo o evento. Afinal a Praça do Carmo é enorme, linda e com a literatura pairando no ar, não tinha como não gostar de cada partezinha -embora esse ano eu confesse que andei por tudo, mas praticamente fiquei o tempo todo no Congresso Literário. E ainda “contaminei” meus amigos Renata e Valmir, que nunca tinham vindo à Fliporto e gostaram muito. Não tem preço.
P.S.: Amanhã continuo com os relatos dia a dia da Fliporto. Espero que vocês gostem, é apenas um relato pessoal.
Ah, a foto acima foi retirada do site da Fliporto.
Era o dia 4 de novembro de 2007 e eu estava estreando esse blog, como uma brincadeira de escrita, uns 5 anos depois de descobrir o quanto eu amava escrever. E foi com o blog que eu fui solidificando essa paixão a cada dia. Conhecendo leitores, visitando outros blogs, sendo visitada, elogiada ou criticada, os dois lados da moeda. E me conhecendo, através das palavras planejadas ou despojadas escritas nesses anos.
E agora, 5 anos depois desse início, eu me sinto mais madura: confio mais no que escrevo, no que leio, no que gosto. E agradeço a quem tem me acompanhado desde sempre (ou mesmo aos que começaram agora): esse blog não seria nada sem vocês!
Quero poder fazer mais e mais anos de aniversário do blog, porque não tem nada que eu ame mais do que escrever e blogar!! Beijo e até logo!
No ano de 2008, uma amiga minha me falou sobre uma cantora muito boa que estava começando a aparecer na mídia, e perguntou se eu nunca tinha ouvido. Era a Duffy. Eu não sabia que uma leve indicação ia se tornar o que se tornou.
Tempos depois, eis que eu, já ouvindo muito o Rockferry, ganhei o cd de uma pessoa que na época era bastante especial para mim. Então o cd tinha tudo para ser mágico. Eu sempre gostei de boas vozes, letras tristes, que gritassem o que tinha na alma, e Duffy tinha muito disso. Ouvia Warwick Avenue, estivesse eu triste ou feliz. Mas se tivesse triste, chorava tal qual ela naquele clipe tão em clima de despedida. Tão da alma, tão lindo. E era assim também com Stepping stone, falando sobre amores que não seriam (e realmente, não foram, rs. Sábia Duffy.). Hanging on too long, que também está no rol das minhas preferidas do cd, parece ser lamentos também sobre algo que não deu certo. E assim sucessivamente, como se fosse a alma gritando ao fim (ou nem começo) de um amor, mostrando que sim, a tristeza faz lindas músicas surgirem, escritas e cantadas pela Duffy. E sim, eu já era fã. Eu poderia citar todas as músicas desse cd, que todas tem alguma importância para mim.
Veio o Endlessly, em 2010. Duffy já me encontrou em outra fase bem diferente da minha vida. E ela também estava, pois já notei que a sonoridade desse disco era um pouco diferente. A mesma voz forte e linda de Duffy dá voz a canções mais pop como My Boy, Keeping my baby e Lovestruck (essa última, uma das minhas preferidas desse cd). Por mais que o ritmo tenha mudado, ela não. Mesmo em roupas sexy como no clipe de Well, well, well ela não foge à sua essência de músicas sobre amor ferido, pois mesmo quando são sobre um amor realizado, algo não vai bem (como a letra de Lovestruck faz suavemente parecer).
Deixo para o final a música que fecha esse cd e vai fechar também o meu post. Uma reflexão um pouco maior, foge um pouco das outras por não falar de um amor, mas da vida e dos seus desafios. Hard for the heart é uma chave perfeita para o fim do meu post e para dizer: quero mais músicas, quero mais cds. Acho que esse amor ainda vai bem longe.
Para finalizar, alguns vídeos:
Difícil não se deixar apaixonar por uma voz assim.