Tag: Crônicas


Mudar

by at 01:13 in Crônicas

Algumas partes de mim vão morrendo pouco a pouco. Nada mórbido, apenas a vida e a sua maneira de ser andarilha, de esquecer aquilo que foi e não é mais, certezas que viraram pó, amores que viraram “quem é ele, mesmo?“.

E se tem uma coisa que eu me orgulho é de certas partes que morreram. Se a parte de mim que me fez amar certas pessoas que eu jamais amaria, que bom que estas não existem mais: foram transpostas por uma nova pele, mais espessa, menos provável de ser submetida a algumas agruras e, por isso mesmo, mais preparada. Se partes de mim que me fizeram cometer certos erros, que bom que morreram. Assim posso fazer mais coisas boas daqui por diante, e ir cortando as arestas daquilo que não está tão bom.

Isso não quer dizer que eu me arrependa de ter feito: se tudo serviu para eu ir modelando minhas atitudes – que aliás, sempre estarão longe da perfeição – foi válido, foi aprendizado. Mas eu me orgulho de tê-las arrancado de mim. Porém, como tudo que é arrancado, deixa marcas, marcas que não saem tão facilmente, se é que saem algum dia. São essas marcas que nos fazem reagir com novas atitudes, novas interpretações de cada situação.

Me orgulho de ter matado em mim aquela que faz o que não aprova por “amor”. De ter assassinado cruelmente uma vida sem luta, de dias iguais, de sonhos que não eram jamais postos em prática. De ter esquartejado aquela que não se gosta, que fica insegura com uma opinião de alguém que nem importa, quem é esse alguém mesmo? Me orgulho de ter deletado a tristeza, toda e qualquer tristeza, que me impedia de alcançar o voo mais leve que o voo de um beija-flor, no qual toda e qualquer culpa dava lugar ao cheiro das flores, ou melhor, das realizações. Tudo isso com ternura, a ternura de mudar e continuar com a mesma essência de sempre.

Não sou e nunca serei beija-flor. Sou beija-vida. E ela me leva na leveza de cada passo e aprendizado.

2013. Crazy mesmo.

by at 21:05 in Crônicas

Em tão pouco tempo, desde que o ano começou, muitas coisas improváveis e assustadoras aconteceram. Foi o papa renunciando, incêndios variados, o meteoro ferindo vários na Rússia, o Feliciano tirando os direitos de ser humano no Brasil, cada vez mais ataques aos homossexuais (principalmente por trás desses escudos chamados redes sociais) são frutos desse ano muito louco. Alguns desses fatos são, para nós, inéditos. Outros não são, mas estão ocorrendo com maior frequência. E apesar de tudo, não vejo nisso um fim, e sim uma transformação. O mundo anda tão arrogante que algo precisa acontecer pra nos mostrar que não gerenciamos tudo, não apertamos o botão de um controle remoto que “muda o canal” de tudo o que nos cerca. E por isso, às vezes temos de saber a hora de parar de agir de forma destrutiva. Estamos longe de sermos super-heróis. Estamos mais para anti-heróis de uma história que nem sabemos onde começa nem onde termina, se vai ter um “viveram felizes para sempre” ou se nem vai dar tempo dizer tchau. Nunca na vida convivi com tantas incertezas. Mas as mudanças nascem assim, nem sempre com tanta clareza.

E acho que por isso mesmo tudo mudou pra tão melhor: as mudanças são mais velozes, as pessoas tem mais valor, o reconhecimento pelas pequenas coisas e causas da vida parece me pôr mais sorrisos no rosto. Não há mais tempo pra esperar para começar a viver plenamente, pois a vida não permite ensaios: as tentativas já são pra valer. O universo conspira e não sabemos bem pra onde: depende da semente que cada um põe nesse chão chamado vida. Mas o chão é o mesmo, a confluência de todas essas sementes. De todos nós.

Então que sejam boas. E que mesmo pequenas, seu conteúdo seja forte.

P.S.: Esse post não tem a mínima pretensão religiosa ou fatalista. Apenas eu estou começando a ver o mundo e as coisas de outra forma.

Como um pássaro

by at 14:18 in Crônicas

love

Imagem retirada do We Heart It

Todo amor tem as suas transformações. De embrião, torna-se vivo em nós através do tempo, até acabar e virar saudade. Até virar lembrança. Ou não.

Tem amores que insistem. Que vivem mesmo com pouco oxigênio. Rarefeito o ar, amorefeito. Só assim pra explicar tamanha vivacidade. Insistem através das paixões, perpassam estas que são pequenos enganos. Distrações dessa roda chamada tempo. Tempo que pode te trazer de volta o que te tirou.

O amor testa sua paciência na distância, na mágoa, na dor, na falta de perdão. Mas tudo isso passa: perde-se pelo tempo. Não há distância que separe um amor de verdade. Não há milhas suficientes para separar. O amor que foi, é e sempre será. Vai em forma de pássaro, vai onde tiver que ir. Vai e não volta se preciso for. Vai e fica onde tem que ficar. De onde nunca deveria ter saído.

Amor é amor. Independente do clichê que possa parecer, do que eu possa ter dito antes, enfim: amor não morre. Amor é sim, eterno. Essas descobertas a vida me trouxe só agora e eu não tenho pudores de dizer que mudei de ideia. Ele ainda está lá, quase intacto. Porque amor é uma matéria que não se desintegra. E no que depender de mim, farei com que reviva em luz e esperança.

Aquele drink

by at 22:03 in Crônicas

Imagem We heart it

Um drink te conquista pelo gosto. Pelo cheiro. Pelas sensações que te causam quando você os utiliza como máscara, para se sentir livre de fazer o que quer que seja. Tem gosto de aventura e perdição. Claro e escuro. O que te leva ao céu e te traz ao chão.

Um drink diverte, te deixa imerso na não-realidade. E o gosto que fica até o amanhecer é de perigo. E você nem se importa com os riscos, pois eles te fazem esquecer também a prudência. Para que frear se as sensações não têm freio? Se tiverem, não são sensações e sim comandos. E a gente não comanda os instintos nesse jogo. A gente tem é que jogar na loucura, simples e livre.

O dia seguinte. Aquela ressaca, vontade de não ter dado confiança para o drink, pois ele pode até ser bom naquele momento, mas a ressaca moral é ainda pior que a física. Lembrar da diversão não a faz mais divertida, nem mais legal. Só faz você se sentir culpado, imensamente culpado por não dizer basta quando era tempo. Agora, já era. Tá feito, tá acabado. O máximo que você pode fazer é tentar se esquivar do drink depois. Do de ontem, e dos outros que você também já provou, porque trocar um drink pelo outro pode até parecer renovador, mas não resolve nada, só te faz mais dependente.

Tudo parece não ter fim e não ter jeito. A cada oportunidade, um drink. Que faz a sua vida prazerosa e reconfortante. Mas, pouco tempo depois, a transforma num caos. E ajeitar o caos não é fácil pois a realidade se estilhaça. Pegar fio por fio, caco por caco não é trabalho que se conclua em pouco tempo. Montá-los numa nova realidade, menos ainda. Mas você vai, e se reergue lutando para nunca mais cair naquela lábia novamente. Que nunca mais aquele drink toque os seus lábios. Você pede, pede e pede.

Até que um dia você nega o drink.