E eis que eu terminei de ler o Cinquenta tons de cinza, do qual já tinha falado nesse post, e não podia deixar de dar minhas impressões aqui sobre o livro. Demorei muito a ler porque tava com pouquíssimo tempo, mesmo. A essa altura todo mundo (ou quase todo mundo já sabe da história, né, mas por via das dúvidas):
Sinopse: Quando Anastasia Steele entrevista o jovem empresário Christian Grey, descobre nele um homem atraente, brilhante e profundamente dominador. Ingênua e inocente, Ana se surpreende ao perceber que, a despeito da enigmática reserva de Grey, está desesperadamente atraída por ele. Incapaz de resistir à beleza discreta, à timidez e ao espírito independente de Ana, Grey admite que também a deseja, mas em seus próprios termos. (Fonte: Skoob)
Eu comecei a ler o livro com bastante curiosidade, diante de todo o burburinho em volta dele. Mas tenho que confessar que no início da história, tive raiva. Eu não fui muito com a cara de Anastasia Steele. Ela é uma garota de 21 anos que – como diz a sinopse e como vamos confirmando pela leitura – não tinha noção de relacionamentos por nunca ter namorado. Levava uma vida normal, morava com sua amiga Katherine Kavanagh, estudava Literatura Inglesa e já estava perto de se formar, trabalhava numa loja de materiais de construção e pensava a vida muitas vezes como um dos seus romances preferidos (no livro, há referências a Tess of the d’Urbevilles, romance de Thomas Hardy que fala sobre Tess, uma garota que foi morar com um suposto primo, que tentou seduzi-la, e por não conseguir, se aproveitou dela), o que parece um pouco, ao decorrer da história, com Ana e Christian, retirando apenas as relações de parentesco. Mas ela me pareceu ter pouca substância, acho até que a Bella de Crepúsculo era um pouco melhor.
Christian Grey é um homem de sucesso, perto dos 30 anos de idade, e apesar de ser bastante jovem já é um bem sucedido e multimilionário empresário, que parece muito fechado a todos, não é visto com ninguém, deixando às curiosas a dúvida se ele não seria gay. Eu achei ele, pelas descrições, bonito sim, mas muito arrogante, e não suporto arrogância e acho que não é porque alguém se tornou rico que precisa ficar o tempo todo dizendo “te dou isso porque eu posso, blá blá blá”. Não curto mesmo e acho que ter sido pobre antes não justifica essa atitude.
Katherine Kavanagh, melhor amiga de Anastasia, com quem divide um apartamento, é rica, bonita e bem sucedida. Também está perto de se formar, como sua amiga. É uma personagem forte, ao meu ver, mas aparece pouco. Uma pena, pois ela realmente vê o que está além da visão ingênua de Anastasia.
Tirando um pouco o foco dos personagens e falando da linguagem em si, percebi que é uma linguagem pobre, não por ser best seller (os bem escritos e com uma história realmente interessante eu até gosto de ler, não tenho nenhum problema com isso), mas porque ela pensa estar fazendo uma tirada maravilhosa quando na verdade é algo tão enfadonho que nos faz nos perguntar se é só aquilo mesmo. E é só aquilo mesmo. Triste quando você é dos leitores que esperam sempre por mais, pelo menos por alguma imagem que valha. Mas, continuemos.
O fato de toda a relação deles ser regida por um contrato é outra coisa que Anastasia não esperava. É muito absurdo ainda mais pra ela, com pouca ou nenhuma experiência “pré-Grey”, tanto sexual como amorosa. E o que isso diz dele, ao meu ver, é que ele é um alguém fraco o suficiente para não saber ter um relacionamento, mas ao mesmo tempo inovador no que diz respeito à tomada de controle na relação. Dizer que isso não história não me chamou a atenção seria mentira.
Anastasia vai tendo mudanças de pensamento ao decorrer do livro, mas sempre se mostrando muito contraditória: ora ela é a submissa de Christian Grey, comprada pelas regalias que ele PODE (como sempre deixa claro, no auge da sua arrogância) fornecê-la, e ela diz aceitar como “empréstimo”, mas enfim… aceita; ora dá vazão à sua deusa interior, mas bem pouco mesmo. A deusa fica bem mais no mundo da idealização da cabecinha dela, o que é uma pena.
Chego agora no assunto em que todos que não leram mas curtem criticar focam como se a obra só tratasse disso: os presentes que Christian Grey dá a Anastasia para adquirir tudo o que quer dela. Não, não acho que ela se comporte como puta (até porque para ser, ela precisava deixar a ingenuidade que a faz mais do que boba de lado), mas é estranho. Ela se deixou passar por muitas situações-limite (embora ela acabasse gostando, sofria no fim) e será que essas atitudes dele que a fizeram passar por isso foram suavizadas por causa de um Blackberry, um carrão na garagem, um iMac, a beleza de Christian, um lugar na primeira classe do avião? Não é que ela foi comprada, ela foi seduzida pela ideia de que ele podia fazer aquilo. Não, ele não podia ao meu ver. Até pra fazer personagens politicamente incorretos tem que saber ter certo jogo de cintura para justificar suas atitudes. E a justificativa de Christian Grey era que ele podia fazer. Acho que não, hein.
Grey, inatingível mesmo à Anastasia – e principalmente a ela – quase nunca se permite ser tocado. E ela vai descobrindo fatos que os aproximam mais, e ele vai deixando só um pouco a arrogância de lado para se abrir pra ela, e isso me fez ter certa simpatia com ele. Porque ele vai se mostrando humano, não apenas um dominador que não quer saber da vontade de ninguém – nesse caso, de Anastasia, e pra mim esse é o ponto alto.
No final, acabei simpática aos dois. A leitura para mim, foi boa, fico feliz porque eu persisti e depois pensei: talvez eu tenha ficado tão revoltada porque imaginei muito na vida real, e tem coisas que não funcionam tão bem na vida real quanto na ficção, então dá mesmo um choque. Mas o livro podia sim, ser melhor escrito, melhor amarrado e Anastasia podia ter um pouquinho de pimenta – e, quem sabe, dominar um pouco o Christian Grey, só para variar (não só sexualmente, mas quem sabe ideologicamente). Mas estou ansiosa por ler os outros dois. E falarei aqui sobre eles também.
P.S.: Também estou esperando pelo filme. E pelos atores cotados, melhor nem esperar muita coisa.
Desde que me entendo por gente, vejo alguns protestantes saudando uns aos outros com a frase: “Paz do Senhor, irmão”. Notava também que eles só faziam isso com os que eram da sua religião (e alguns, mais extremos, apenas com o da sua denominação, ex. Assembléia de Deus). Aí alguns de vocês podem perguntar: “COMO VOCÊ SABE, MEU!”, como já rolou num post antigo sobre educação aqui do blog. Simples, eu observo desde que me entendo por gente, mas assim tô voltando pro início e divagando já. Seria bonitinha a prática se não fosse extremamente preconceituosa. A “Paz do Senhor” só pode ser dada para os que já estão naquele grupinho fechado que é uma igreja ou religião (tão fechado que em algumas, os cultos são de portas fechadas MESMO. Acho isso tenso). E onde está o amor nisso tudo? Cadê o amor ao próximo?
Eu já acho tolice ter várias denominações. Para que? Sério, me digam. É uma querendo ser melhor que a outra, dizendo que quem é dessa vai pro céu, quem é daquela, não vai. Eu não sou de nenhuma, e estou muito bem, obrigada. Mas sei que muitos protestantes sérios se envergonham também de certos posicionamentos. Tem igreja que se sustenta mais por crendices e posturas sociais como eles querem que sejam do que pela Bíblia. Mas, né, tem “crentes” pra tudo. Eu fico passada com tamanho desamor. Desejar paz só pra quem é da sua religião é algo muito egoísta, não acha não? Pois eu sim. E tenho dito!
Postei ouvindo: Machu Picchu – Strokes (nada a ver com o tema, mas adoro essa música).
Eu acho que aqui no Brasil ninguém liga mais pra talento. É Família Restart de um lado, Justin Bieber de outro, mas enfim, este não é o meu ponto (e na verdade é, vocês perceberão).
Eis que hoje em muitos sites e jornais aparecem fotos de Amy mostrando os peitos (que eu me nego a pôr aqui, lógico) na sacada do Hotel Santa Tereza, onde está hospedada no Rio de Janeiro. Tá, eu sei que ela é meio assim mesmo, e nem ligo. Sabe por que? A primeira vez que ouvi a voz dela nem sabia que já cantava há anos e me arrepiei com sua linda voz. O estilo soul, que é o meu predileto, passei a conhecer mais por causa dela. E sempre, mesmo bêbada, drogada, desleixada e louca ela canta bem. Ponto.
Eu começo a gostar de um cantor porque ele canta. Simples assim e deveria ser com todos. Mas fico muito irritada de ver as pessoas dizerem: “ah, Amy, a bêbada, a drogada!”. Que eu saiba muitos bons cantores e bandas são viciados em drogas e nem por isso são estigmatizados como ela é. Imagem pública é tudo? A música é mais. Ela compõe e canta com toda a alma e pra mim isso que importa. Quanto as escolhas dela pra levar a vida, bom, ela quem decide. Quem sou eu ou quem é você pra ficar julgando?
Ela faz boa música e isso é raro hoje em dia, pelo menos no mundo “pop” com o qual, meus queridos, ela nem compete. Se não gosta, tudo bem, mas o respeito é algo bom de se praticar além de falar.
(…) Sucedeu então algo até hoje inexplicado. O fumo da carne oferecida por abel subiu a direito até desaparecer no espaço infinito, sinal de que o senhor aceitava o sacrifício e nele se comprazia, mas o fumo dos vegetais de caim, cultivados com um amor pelo menos igual, não foi longe, dispersou-se logo ali, a pouca altura do solo, o que significava que o senhor o rejeitava sem qualquer contemplação. Inquieto, perplexo, caim propôs a abel que trocassem de lugar, podia ser que houvesse ali uma corrente de ar que fosse a causa do distúrbio, e assim fizeram, mas o resultado foi o mesmo. Estava claro, o senhor desdenhava caim. Foi então que o verdadeiro carácter de abel veio ao de cima. Em lugar de se compadecer do desgosto do irmão e consolá-lo, escarneceu dele, e, como se isto ainda fosse pouco, desatou a enaltecer a sua própria pessoa, proclamando-se, perante o atónito e desconcertado caim, como um favorito do senhor, como um eleito de deus. (…) A cena repetiu-se, invariável, durante uma semana, sempre um fumo que subia, sempre um fumo que podia tocar-se com a mal e logo se desfazia no ar. E sempre a falta de piedade de abel, os dichotes de abel, o desprezo de abel. Um dia caim pediu ao irmão que o acompanhasse a um vale próximo onde era voz corrente que se acoitava uma raposa e ali, com as suas próprias mãos, o matou a golpes de uma queixada de jumento que havia escondido antes num silvado, portanto com aleivosa premeditação. Foi nesse exacto momento, isto é, atrasada em relação aos acontecimentos, que a voz do senhor soou, e não só soou ela como apareceu ele. (…) Que fizeste com o teu irmão, perguntou, e caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas de meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o primeiro culpado és tu, eu daria a vida pela vida dele se tu não tivesses destruído a minha, Quis pôr-te à prova, E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou o dono soberano de todas as coisas, E de todos os seres, dirás, mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um momento fosses realmente misericordioso, que aceitasses a minha oferenda com humildade, só porque não deverias atrever-te a recusá-la, os deuses, e tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado, Esse discurso é sedicioso, É possível que o seja, mas garanto-te que, se eu fosse deus, todos os dias diria Abençoados sejam os que escolheram a sedição porque deles será o reino da terra, Sacrilégio, Será, mas em todo o caso nunca maior que o teu, que permitiste que abel morresse, Tu é que o mataste, Sim, é verdade, eu fui o braço executor, mas a sentença foi dada por ti, O sangue que aí está não o fiz verter eu, caim podia ter escolhido entre o mal e o bem, se escolheu o mal pagará por isso, Tão ladrão é o que vai à vinha como aquele que fica a vigiar o guarda, disse caim, E esse sangue reclama vingança, insistiu deus, Se é assim, vingar-te-ás ao mesmo tempo de uma morte real e de outra que não chegou a haver, Explica-te, Não gostarás do que vais ouvir, Que isso não te importe, fala, É simples, matei abel porque não podia matar-te a ti, pela intenção estás morto, Compreendo o que queres dizer, mas a morte está vedada aos deuses, Sim, embora devessem carregar com todos os crimes cometidos em seu nome ou por sua causa (…)
Trecho de Caim, novo livro de José Saramago. Eu quero.